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Capelinha submersa
Eu tô com a zica, fato. (E com uma curiosa atração pelo número três...) Nos últimos três meses, o carro ferveu três vezes, três pneus e um tanque de combustível furados, além de um manobrista ter feito o favor de dar uma porrada de 1,3 mil reais. Eles vão pagar, mas quem fica sem carro sou eu, né? Ah, intercalando dois carros diferentes. A zica tava nos dois. Porque a zicada era eu! (E eu dirijo direitinho, viu!) Como hoje atingi meu apogeu, creio que a tendência agora seja a decadência da porra da zica. Eu alaguei. Com água pela cintura. E correnteza. Tá, eu só não explodi no metrô de Londres porque atrasei 10 minutos. E fiz sexo com um dos terroristas que explodiram o WTC (eu obviamente não sabia, foi cinco meses antes, mas confesso e peço perdão por isso: foi um dos homens mais sedutores que já conheci...) Fato é que foi hoje que, pela primeira vez na vida, eu tive medo de morrer. De uma maneira estúpida. Por uma decisão errada. Quando eu vi que o trânsito estava a-b-s-o-l-u-t-a-m-e-n-t-e parado, sem a menor previsão de volta ao caos normal, eu não tive dúvidas: estacionei o carro e pensei: vou a pé! Detalhe: a 15 quilômetros da minha casa! Eu sabia que tinha chovido bastante, a estação estava um caos porque os trens pararam de funcionar. Mas em nenhum momento eu imaginei que o meu caminho havia se tornado uma piscina de xixi de rato. E que eu estaria nadando nela... -Ai, ki nojuuuuuuuuuu!!!!!!!!!!!!!! Eu já havia andado bastante quando cheguei na avenida do Estado e constatei que estava completamente alagada. C-a-r-r-o-s-s-u-b-m-e-r-s-o-s. Cena de “filme” mesmo, surreal. E não havia meios de chegar à minha casa sem atravessá-la. Galera parada no meio da rua, aquele puta frio, ainda chovendo, eu de vestido sem manga, todo mundo meio perdidão. Daí que um cara virou pra mim e disse: -Eu vou atravessar. Vamos nos ajudar? E eu achando que o cara tava fazendo um drama, a gente só ia molhar um pouco as pernas no xixi de rato, mas eu tava com tanto frio e queria tanto chegar em casa, que pra mim pareceu tudo muito “normal”... Você deve estar me achando louca, caro leitor. Mas eu discordo, porque todo louco jura que é são. E eu abandonei a prática. Faz um tempinho já. Eu tento agir com uma certa coerência. Mas isso não significa que eu consiga sempre. (Who does?) Fato é que eu queria tanto chegar em casa, que pra mim tinha toda a lógica do mundo fazer aquilo. Só não imaginava que teria que andar cerca de um quilometro com água pela cintura, no meio da correnteza! Voltar? Pra onde? Eu já estava no meio do caminho! O mais engraçado (agora!) é não saber onde você está pisando. O que, na prática, significa cair em buracos o tempo todo e afundar ainda mais. Já em terra firme, no Ipiranga, eu estava tão exausta que parei no primeiro boteco que encontrei. Minto, o primeiro foi um boteco com cerca de 50 homens. O mais culto devia ser estivador. Eu até tentei esquecer disso, mas eles não esqueceram. Olhavam-me como seu eu fosse aquelas “garotas-da-camiseta-molhada”, lembra? Eu, a “garota-do-vestido-molhado”. “Só-que-sujo”. “Muito-sujo”. Eu nadei em uma mistura de barro com xixi de rato. E com mais um milhão de coisas que eu não quero nem pensar. Daí fui pro segundo boteco. Sentei na mesa, aquela comoção geral. (Sim, eu era a única pessoa ensopada no recinto. Ah, e suja. Muito suja.) O casal ao lado se apiedou. O cara até ofereceu o paletó para eu me enxugar! Vai dizer que não existe gente boa nesse mundo? Eu neguei, claro, porque aquilo não ia refrescar em nada a minha situação. Só sujaria o paletó do cara. Agradeci, comovida... Eles queriam ouvir a história tim-tim por tim-tim (ou eles eram seres muito generosos mesmo, ou o date deles devia estar muito chato... Hihihi...) E eu só queria comer alguma coisa, beber uma caipirinha e relaxar. Esvaziar a mente. Não falar. Não pensar. (Um palhacinho seria uma ótima pedida, mas não fazia parte das possibilidades do momento...) Daí que eu acabei fazendo tudo isso. Depois andei mais um tanto, porque apesar de aquela ser a parte “seca”, a cidade estava com 200 quilômetros de congestionamento, às nove da noite, resultado dos vários pontos de alagamento pela cidade. Sentar dentro de um ônibus ou táxi por horas, sem poder fazer nada, seria como voltar ao começo da história. Só que em condições bem piores - no primeiro capitulo eu estava limpa e seca. E dentro do meu carro!!!! Três horas e meia depois de deixar a loja, cheguei, salva. (Sã eu já disse que não sou.) Barriga cheia, limpa e cheirosa. Deitada no sofá. Escrevendo no blog. Duas e catorze da manhã. PS: Eu ainda estou com medo de morrer. De leptospirose. Eu me esfreguei bastante, mas vai saber, né? Se eu não voltar nas próximas 24 horas, é porque fui!
Escrito por (+) baixinha (-) invocada às 02h16
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